Google

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Time Out | The Dave Brubeck Quartet (1959)



Você pode até pensar que não conhece The Dave Brubeck Quartet, mas tenho quase certeza que já ouviu a música "Take Five" em algum comercial ou programa de televisão.





O quarteto formado em 1951 por Dave Brubeck ganhou notoriedade tocando em universidades, lançando uma série de álbuns com títulos como Jazz Goes To College e Jazz Goes To Junior College. Depois de trocar inúmeras vezes de baixista e baterista, em 1958 o quarteto assumiu sua formação clássica: Brubeck no piano, Paul Desmond no saxofone, Joe Morello na bateria e Eugene Wright no baixo. No ano seguinte, em uma antiga igreja transformada em estúdio pela Columbia, gravaram Time Out.

Composto apenas por músicas originais, com a particularidade de nenhuma delas ser marcada pela métrica habitual, o disco quase não foi lançado. Todos os executivos da Columbia torceram o nariz, salvo pelo presidente da gravadora, Goddard Lieberson (manda quem pode, obedece quem tem juízo! Rá!). Dave Brubeck disse o seguinte sobre o episódio:

          "Quebrei três leis da Columbia. Todas as sete faixas eram composições originais, quando a gravadora gostava de entremear com standards. Queriam também músicas que fizessem as pessoas dançarem e eu lhes dei todos aqueles compassos esquisitos. Colocaram uma pintura na capa do LP, coisa que nunca se fazia com um disco de jazz. Obviamente, a companhia não queria lançar o álbum".

Apesar de não ter sido um sucesso de crítica na época, o som inovador de Time Out teve ótimas vendas e recebeu disco de platina.

O livro diz que:
Na faixa "Take Five", concebida previamente no compasso 5/4, pouco apropriado ao swing, o pianista se mantém num improviso percussivo permanente, enquanto o sax alto de Paul Desmond navega em uma linha sinuosa. Muitas vezes, Brubeck não é a estrela do trabalho. Poucos se lembram que Desmond - que, com seu estilo seco, teve um papel importante no sucesso do quarteto - é o autor deste inesquecível hit. Da mesma forma, é fundamental a bateria segura de Joe Morello e a solidez do baixo de Eugene Wright, que transformaram um material difícil como "Blue Rondo À La Turk", no compasso 9/8, e "Three To Get Ready", que oscila entre 3/4 e 4/4, em uma matéria-prima fundamental do jazz. É bom lembrar que, nessa época, John Coltrane, Cecil Taylor e Ornette Coleman estavam abrindo os caminhos do free jazz.




Concluindo
Imagine Mozart tocando jazz. Tenho certeza que o resultado seria bem parecido - senão igual - a "Blue Rondo À La Turk". Embora seja um disco de jazz, senti bastante uma certa influência da música erudita em Time Out. Além de "Blue Rondo À La Turk", ela também aparece em "Three To Get Ready".

O jazz de Brubeck e seu quarteto é fantástico. São quatro excelentes músicos, mas, acho que mais que o piano de Dave, é o sax de Paul Desmond que faz a diferença. Depois de ouvir tantos discos de jazz nos últimos dias, ficou claro pra mim o quanto os "compassos esquisitos" de Dave Burbeck são inovadores. "Take Five" é uma daquelas músicas pra deixar no repeat até cansar; não é à toa que já foi trilha sonora de tanta coisa.

Enfim, se tivesse que resumir Time Out em apenas uma palavra, pode ter certeza que seria genial.



Faltam 489 dias.
Faltam 978 discos.


Gunfighter Ballads And Trail Songs | Marty Robbins (1959)



(Country, de novo? Sério?)

Final dos anos 50. Seriados como Maverick e Bonanza faziam muito sucesso. Mesmo que a televisão ainda não fosse a grande formadora de opiniões que é hoje em dia, era inevitável que muitos cantores aproveitassem essa onda Western e, de certa forma, fornecessem a trilha sonora para a eterna luta entre os justiceiros e os foras-da-lei. Um deles foi Marty Robbins.

Em seus cerca de 40 anos de carreira, Robbins se tornou um dos mais populares e bem sucedidos cantores de country. Muitas de suas músicas se tornaram hits, e ganhou alguns prêmios Grammy, sendo um deles pela canção "El Paso", que faz parte de Gunfighter Ballads and Trail Songs.

O livro diz que:
Gravado em um único dia com uma banda pouco conhecida, mas bem azeitada, Gunfighter Ballads And Trail Songs é uma homenagem ao Velho Oeste. Algumas faixas cantam histórias tradicionais, em particular "Billy The Kid" e "The Strawberry Roan". O que destaca este disco são as 4 músicas escritas por Robbins, cantadas daquele seu jeito suave e inconfudível. "Big Iron" é uma canção que evoca de forma maravilhosa o Oeste mitológico das telas de cinema, que foi apresentado a Robbins por seu avô, um patrulheiro do Texas, quando ainda era criança. "El Paso" é a história, contada na primeira pessoa, de como Robbins atirou num forasteiro numa disputa pelo amor de uma mexicana. Essa música ganhou o prêmio Grammy concedido a uma canção country; o LP serviu de modelo para um sem número de álbuns country lançados depois.




Concluindo
Peraí que vou ali buscar meu chapéu, meu poncho e meu cavalo...

Gunfighter Songs And Trail Ballads é aquele country beeeem Hollywood mesmo, sabe? Não sei se consigo me fazer entender aqui, mas eu juro que fiquei esperando alguém soltar um "Yyyyiiihaaaa" no meio de alguma música, e cavalos saírem galopando, algo assim.

Cada música tem uma historinha: uma sobre o famoso Billy The Kid (a lenda suprema do Velho Oeste americano), outra sobre uma fazenda no vale, outra sobre a chica mexicana por quem ele se apaixonou em "El Paso" e ainda há uma em que ele conta uma mal-sucedida história de amor que acaba em enforcamento. Tudo beeeeeem western!

Enfim, se for comparar com o disco dos Louvin Brothers, que foi um dos primeiros que ouvi aqui, Gunfighter Songs And Trail Ballads é até, digamos, razoável. Os arranjos são mais elaborados, há uma banda acompanhando Robbins, e o disco soa mais interessante de uma forma geral. Ainda assim, o country não me conquistou. Marty Robbins, essa cidade é pequena demais pra nós dois.


Faltam 489 dias.
Faltam 979 discos.


Kind of Blues | Miles Davis (1959)




Oito álbuns e alguns dias depois, volto a falar do grande Miles Davis aqui no blog. O disco da vez é Kind Of Blues, que não apenas é o mais vendido de Davis como é também o álbum mais vendido da história do jazz.

Em Kind Of Blues, Miles dá continuidade às experimentações que já vinha fazendo em seus discos anteriores, baseadas na modalidade (conceito que trabalha com escalas musicais ao invés de acordes). É diferente de seus trabalhos anteriores com o hard bop e a improvisação. Por conta disso, alguns críticos da época não consideravam este álbum como um disco de jazz. Hoje, é considerado um dos mais influentes da história da música.

O pianista Bill Evans contou como aconteceram as gravações:

          "Miles chegou com novas músicas que ele havia feito horas antes e nos apresentou apenas um esqueleto delas, indicando o que queria em cada uma. O grupo começou a tocar espontaneamente e gravamos um take só, ou seja, foram gravadas ao vivo".


O livro diz que:
Desde a abertura em meio tempo de "So What", o álbum apresenta um leque variado de estilos, como a espantosa "Blue In Green", com Wynton Kelly tocando piano suavemente para acompanhar os lamentos do trompete de Davis, e a languidez da espanholada "Flamenco Sketches". A banda estava tão afinada que foram necessários apenas seis takes para gravar as cinco faixas - apenas "Flamenco Sketches" precisou de uma nova rodada.


John Coltrane, Cannonball Adderly, Miles Davis
e Bill Evans nas gravações de Kind Of Blues

Concluindo
Este disco é totalmente do primeiro que ouvi do Miles Davis, Birth Of The Cool, sobre o qual escrevi aqui há alguns dias. Em Kind Of Blues as músicas são mais lentas, mais longas. O que não quer dizer que sejam arrastadas, pelo contrário. São extremamente fluídas. Senti que nesse disco cada músico da banda de Davis teve mais espaço para experimentar, para ousar um pouco. Os solos são mais longos, e, entre eles, impossível não destacar o de John Coltrane em "So What".

Kind Of Blues é cool, é romântico, é melancólico... é deliciosamente melódico. É, de fato, uma obra-prima do jazz.


Faltam 489 dias.
Faltam 980 discos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

The Genius Of Ray Charles | Ray Charles (1959)


Depois do loooooongo (e muito bom) disco da Ella Fitzgerald, achei que não daria conta de postar de novo hoje. Mas, pô, é o vigésimo disco. E é o Ray Charles. Vale o esforço! rs

Frank Sinatra dizia que Ray Charles era "o único gênio de verdade no show business". Não sei se é realmente o único, mas, de qualquer forma, é considerado um dos maiores gênios da música. Foi o grande pioneiro do soul, fundindo rythm & blues, gospel e blues nas suas primeiras gravações com a Atlantic Records. Embora sempre estivesse ligado ao soul, Charles não se ateve a nenhum gênero musical específico, e trabalhou duro para criar seu próprio som, misturando jazz, gospel, rythm & blues e blues para chegar em um novo estilo de soul que mudasse a música americana. Alguém duvida que ele conseguiu?

O livro diz que:
A classificação dos gêneros musicais parecia fútil, portanto, quando Charles entrou no estúdio, no final de 1959. Na essência, ele era um inventor dos sentidos. (...) Com arranjos de Quincy Jones e acompanhamento de alguns dos integrantes das bandas de Count Basie e Duke Ellington, este disco tornou Charles responsável pela música mais bem elaborada da época.




Concluindo
The Genius Of Ray Charles é um disco só, mas bem que poderia ser dois. As seis primeiras músicas são energia pura. Ray Charles está acompanhado de uma big band, e quase não se ouve seu piano. A faixa de abertura, "Let The Good Times Roll", é um blues pra ninguém botar defeito, seguida por uma linda interpretação de "It Had To Be You" (acho que a melhor que já ouvi).

As outras seis músicas do disco são deliciosas baladas. Os metais da big band cedem um pouco de seu espaço para o piano, com direito a um solo em "Just For a Thrill", e o vocal de Ray Charles vem acompanhado por um delicado coro feminino. O destaque fica por conta de "Come Rain Or Come Shine", já conhecida na voz de Frank Sinatra, mas que ganha um charme especial com o soul de Ray Charles.

É difícil definir um único gênero musical para cada uma das canções de The Genius Of Ray Charles. É uma mistura de jazz, blues, swing e rythm & blues que dá certo, dá muito certo. O nome do disco não poderia ser outro. Ray Charles realmente é um gênio.


Faltam 490 dias.
Faltam 981 discos.

Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Song Book | Ella Fitzgerald (1959)



Depois de Billie Holiday e Sarah Vaughan chegamos àquela que eu acredito ser a mais famosa das divas do jazz, Ella Fitzgerald. É famosa pela pureza de sua tonalidade de voz, sua dicção, fraseado e entonação impecáveis, bem como pela sua impressionante capacidade de improviso no scat (aqueles inconfundíveis "do ba loo dum ba" que Ella faz como ninguém). "Lady Ella" é considerada uma das grandes intérpretes do cancioneiro norte-americano.

Este disco faz parte do Great American Song Book, uma coleção de oito conjuntos de song books de diversos artistas lançados pela gravadora Verve. Os compositores e letristas abordados representam uma grande parte do cânone cultural americano. Entre eles estão Duke Ellington, Cole Porter e os irmãos George e Ira Gershwin. Esta série de songbooks acabou se tornando a obra mais bem sucedida de Ella Fitzgerald, sendo muito aclamada pela crítica. É, sem dúvida, sua contribuição mais significante à cultura dos Estados Unidos.

Os irmãos compositores George e Ira Gershwin escreveram para espetáculos da Broadway e também músicas populares de sucesso. George também compôs para concertos clássicos (Quem nunca ouviu "Rhapsody In Blue", ouça! Agora! De preferência, durante a sequência de abertura do filme Manhattan, de Woody Allen.). George compunha as melodias e Ira, as letras, em uma parceria que deu tão certo que até hoje muitas das músicas dos irmãos são usadas em trilhas sonoras na televisão e no cinema.


Os irmãos Gershwin


Quando Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Song Book foi gravado, George já havia falecido. No entanto, Ira ainda estava vivo, e além de acompanhar o projeto, ajudou com letras e deu suporte em canções que nunca haviam sido gravadas. Quando o disco ficou pronto, Ira declarou que "não fazia ideia de como nossas canções eram boas, até ouvir Ella cantá-las".


O livro diz que:
Se um pouco da malícia de Cole Porter se perdeu na interpretação de Ella Fitzgerald, e nem todas as músicas de Rodgers e Hart mereceram sua atenção, mas melodias incomparáveis de Gershwin e o jeito à vontade de cantar da diva foram feitos um para o outro. A terna "Oh, Lady, Be Good!" é uma revelação, uma interpretação próxima às aulas de scat que Ella daria em seus shows durante anos; a lenta "Embraceable You" é, da mesma forma, envolvente. Mas é nas músicas rápidas que ela brilha. O swing que Ella emprestava, sem esforço, a tudo o que cantava encontra o seu melhor em "Clap Yo' Hands", "Bidin' My Time" e na deliciosa "'S Wonderful"; vale ouro o tempero que ela acrescenta à contraposição boba de salsaparilla/sasparella dos versos de Ira Gershwin em "Let's Call The Whole Thing Off". Riddle, no auge de sua criatividade depois de vários discos com Frank Sinatra, mostra-se inspirado. Este álbum é o melhor da coleção Song Book e apresenta a seleção definitiva daquele que é, talvez, o compositor americano definitivo.


Ella Ftizgerald



Concluindo
São 2 discos com 18 faixas e um com 17. Fez as contas? Sim, são 53 ao todo. Acontece que são 53 músicas muito boas. São cerca de 194 minutos em que Ella desfila todo seu talento vocal pelas composições primorosas dos Gershwin. Alguma dúvida de que vale muito a pena ouvir Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Songbook?

Muitas das canções deste disco já faziam parte das minhas favoritas há tempos, como "The Man I Love" (que Ella canta lindamente, mais que Billie Holiday, eu acho), "Let's Call The Whole Thing Off" (a interpretação aqui é muito boa, mas continuo preferindo aquela em que Louis Armstrong a acompanha), "Someone To Watch Over Me", "They All Laughed" (deliciosa!) e "Love Is Here To Stay" (que tocará no meu casamento, se um dia eu resolver cometer a insanidade de me casar). Ou seja, podemos dizer que Ella já era uma velha conhecida minha. O que me surpreendeu neste disco é maneira como realmente existe sim um tiquinho de swing em tudo que ela canta (o livro diz isso e eu concordo plenamente), e a facilidade que ela tem para transitar por ritmos variados, como a rumba em "Just Another Rhumba", o ragtime de "The Real American Folk Song" e até uma valsinha em "By Strauss". Na lenta "Oh, Lady, Be Good", Ella está simplesmente sublime, e ainda faz uma doce interpretação de "Funny Face" (embora a de Fred Astaire no filme homônimo ainda seja imbatível pra mim). Lady Ella é espirituosa, é terna, é sexy, conforme cada canção pede.

Sei que é um disco (na verdade, 3) muito longo, mas vale a pena dedicar um tempo pra ouví-lo com o carinho e a atenção que ele merece. O casamento entre Ella Fiztgerald e os irmãos Gershwin deu muito certo, e fez de Ella Fitzgerald Sings The Gershwin Song Book um dos mais importantes discos não só do jazz, mas da música como um todo.


Faltam 490 dias.
Faltam 982 discos.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sarah Vaughan At Mr. Kelly's | Sarah Vaughan (1958)



Eu confesso: apesar de gostar bastante de jazz, eu nunca tinha ouvido nada da Sarah Vaughan. Sim, eu sei, é um verdadeiro crime isso, eu concordo. Graças ao desafio dos 1001 discos, acabei de me redimir. Sorte a minha. Mesmo.

Filha de um carpinteiro e de uma lavadeira, foi aluna da Newark Arts High School. Porém, quando suas aventuras como cantora começaram a se sobrepor aos estudos, Vaughan abandonou a escola para se dedicar mais à música. Nesta mesma época, ela e seus amigos atravessavam o Rio Hudson para ouvir as big bands que tocavam no Apollo Theater, no Harlem, em New York. Foi lá, no Apollo, que Sarah venceu um concurso para amadores e foi contratada em 1943 para abrir o show de Ella Fitzgerald. Começava assim seu caminho rumo ao estrelato.

Vaughan é famosa por sua voz de tonalidade grave, seu grande controle do vibrato e sua enorme versatilidade. Embora seja considerada uma cantora de jazz, ela evitava classificar-se como tal. Sassy, como ficou conhecida, dizia o seguinte:

          " Não sei porque me chamam de cantora de jazz, embora eu ache que as pessoas me associam ao jazz porque é nele que eu fui criada, lá no início. Não estou desmerecendo o jazz, mas não sou uma cantora de jazz. Betty Bebop é uma cantora de jazz, porque isso é tudo que ela faz. Eu já fui chamada até de cantora de blues. Já gravei todos os tipos de música, mas (para eles) eu sou ou uma cantora de jazz, ou uma cantora de blues. Eu não posso cantar um blues - só um blues, puro e simples - mas eu posso colocar o blues em qualquer coisa que eu cantar. Eu posso cantar "Send In The Clowns" e colocar um pouquinho de blues nela, ou em qualquer outra canção. O que eu quero fazer, em termos de música, é qualquer tipo de música que eu goste, e eu gosto de todos os tipos de música."

O livro diz que:
O CD Sarah Vaughan At Mr. Kelly's, lançado em 1991 pela EmArcy, justifica plenamente as reedições. Contém o dobro de músicas do original. Vaughan está inefável em "September In The Rain" e sensual em "Honeysuckle Rose". Quando esquece a letra em "How High The Moon", tem presença de espírito e oferece alguns improvisos em homenagem a Ella Fitzgerald.




Concluindo
Por que mesmo eu nunca havia escutado nada da Sarah Vaughan? Que voz linda! Linda, linda, linda... posso ficar aqui até amanhã repetindo isso, e ainda não será suficiente.

Em Sarah Vaughan At Mr. Kelly's, Sassy está bem relaxada, eu diria. Ela ri, brinca com o público quando esquece um pedacinho da letra em "Willow Weep For Me". Sua voz vai do humor à melancolia sem esforço, naturalmente, conforme as músicas exigem. Ela tem um senso de ritmo absurdo! Faz uma deliciosa interpretação de "Just a Gigolo", mas o destaque pra mim fica por conta da lindíssima "Dream" e de "I Cover The Waterfront", em que Sarah usa e abusa da sua capacidade vocal, fechando o disco com chave de ouro.



Faltam 491 dias.
Faltam 983 discos.

Jack Takes The Floor | Jack Elliott



Jack who? Mais um dos artistas que estão no livro e que eu nunca havia ouvido falar.

Filho de um médico judeu do Brooklyn, Jack Elliott fugiu de casa aos 15 anos para se juntar a uma companhia de rodeio. Foi lá que teve contato com seu primeiro cowboy de verdade, Brahmer Rogers, que cantava, tocava violão e banjo de 5 cordas e recitava poesias. Depois de um tempo, seus pais o arrastaram de volta para casa, para terminar o high school. Foi então que começou a tocar em alguns clubes nos arredores do Greenwich Village (o super cool bairro dos Friends, só pra constar.).

Elliott foi pupilo de Woody Guthrie. Seu violão e o domínio que tinha do material de Guthrie tiveram grande impacto em Bob Dylan, que por algumas vezes foi tido como filho de Jack Elliott, já que este apresentava as canções de Dylan dizendo "Esta é uma canção do meu filho, Bob Dylan". Seu estilo consiste no violão tocado com palheta, combinado com histórias contadas de maneira ora lacônica, ora engraçada, às vezes acompanhado por sua gaita. O jeito forçado e nasalado de cantar foi emulado por Bob Dylan.

O livro diz que:
Este disco é uma faísca no motor da música moderna. Jack Takes The Floor (mais tarde relançado com o nome de Muleskinner) foi gravado sem formalidades na Topic Records, em Londres. Jack inicia cada música com introduções lentas e oblíquas, e só isso já vale o preço do disco. Sua técnica na guitarra era uma aula para os "cantores de folk" que arranhavam as cordas na época, mas também deixou marcas, mais adiante, na música popular em si.


"Pai e filho" juntos:
Dylan e Elliot


Concluindo
Olha, não vou mentir: depois de tanto jazz e um pouco de rock'n'roll aqui e ali, estava precisando ouvir algo diferente. Afinal, com este desafio não tem sobrado muito tempo para ouvir outros discos que não sejam os 1001 do livro.

Jack Takes The Floor é um exemplo de como coisas muito simples podem dar certo. É um disco totalmente despretensioso, gostoso de ouvir. É quase como se você estivesse batendo um papo com Jack Elliott e, de repente, ele resolvesse pegar seu violão pra fazer um som. Country, bluegrass, blues, folk... está tudo lá, até aquele bom e velho yodeling. Soa bem parecido mesmo com as músicas do começo da carreira do Bob Dylan, é impossível não perceber a influência de Elliot nas músicas mais antigas dele.



Faltam 491 dias.
Faltam 984 discos.

Lady In Satin | Billie Holiday (1958)



Meu primeiro contato com o jazz, quando eu tinha uns 12 anos, foi através da Billie Holiday. Meu pai comprou - totalmente por acaso, acredito - um CD com uma coletânea de sucessos dela. Digamos que foi amor à primeira ouvida. Muitos anos passaram, outras divas do jazz entraram na minha vida, mas pra mim, a Lady Day continua sendo a melhor delas.

Billie Holiday nunca teve uma educação formal de música. Aprendeu ouvindo Bessie Smith e Louis Armstrong. Cantou em diversas big bands, entre elas as de Count Basie e Duke Ellington, e foi uma das primeiras negras a cantar com uma banda de brancos, em plena época da segregação racial nos Estados Unidos.

Apesar do sucesso, lá pelos anos 40, Billie se deixou levar pelo álcool e pelas drogas, que somados aos momentos de depressão e aos relacionamentos com homens de comportamento abusivo, causaram males a sua saúde e, consequentemente, a sua voz. 

Em suas últimas gravações, os efeitos da saúde debilitada podem ser notados na sua voz, que perdia sua exuberância e se tornava mais grosseira. Lady In Satin foi seu último álbum lançado em vida, e é composto apenas por músicas que ela não havia gravado antes. Enquanto alguns o consideram "uma visão voyeurística de uma mulher derrotada", outros acreditam que é um dos melhores discos de toda sua carreira.

O livro diz que:
... ao desnudar standards como "You Don't Know What Love Is" e "Glad To Be Unhappy" até sobrar apenas a emoção, Holiday canaliza seu orgulho junkie para os blues mais sinceros já gravados. São canções-guia, diferentes de tudo que o jazz já havia cantado antes: o amor é pintado como loucura, desespero, resignação, com uma brutal honestidade. Não é surpresa que este seja o disco favorito de Holiday e tenha se tornado o testamento e o desejo final de um mito.


Billie Holiday em 1958


Concluindo
Como eu disse lá no começo do post, já faz algum tempo que conheço a Billie. Mas Lady In Satin é algo totalmente novo pra mim (não é porque eu ouvi a primeira vez aos 12 anos que já ouvi tudo, certo?). Não é a Lady Day alegre de "What A Litlle Moonlight Can Do", nem a Billie doce de "God Bless The Child", entre tantas outras canções que soam totalmente diferentes das 11 faixas deste álbum.

Lady In Satin é um disco que, pra mim, soa totalmente sincero. Cada canção é uma confissão, um desabafo, um lamento de quem teve uma vida sofrida (abuso aos 10 anos, prisão, prostituição... fora as drogas, a bebida e os homens que não prestavam, como disse antes). É doído. É triste, triste demais. Curiosamente, é tudo isso que faz dele uma obra-prima. Sua voz - já mais rouca que o normal, grosseira - e toda a dor e sofrimento presentes nela fazem com que o disco tenha uma das interpretações mais viscerais e honestas que já ouvi. É lindo, tristemente lindo.


Faltam 491 dias.
Faltam 985 discos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Dance Mania, Vol. 1 | Tito Puente (1958)



Você talvez conheça Tito Puente por causa da canção "Oye Como Va", que foi regravada por Carlos Santana nos anos 70. Mas a importância deste norte-americano de descendência porto-riquenha para a música vai muito além.

Tito Puente é reconhecido por sua enorme contruibuição à música latina. Teve Machito como seu mentor, e além de um famoso band leader, foi também percussionista, compositor e arranjador. Gravou mais de 100 álbums, publicou mais de 400 canções e ganhou 5 prêmios Grammy durante sua carreira. É conhecido como nada mais, nada menos que o "Rei do Mambo".

Nos anos 50, o mambo e o cha-cha-cha eram a sensação do momento. A música se tornava um catalisador capaz de juntar pessoas de diferentes raças e etnias. Em New York, a banda de Tito Puente era considerada uma das três melhores orquestras da cidade. É neste contexto que surge Dance Mania, Vol. 1. Foi o primeiro disco de ritmos cubanos sem um apelo comercial sentimentalista, e também o primeiro álbum de mambo com vocais em espanhol. Teve forte influência nos músicos que moldariam a próxima década do latin jazz, e até hoje é o disco de mambo mais vendido de todos os tempos.

O livro diz que:
Dance Mania também marcou a estreia do vocalista da banda de Puente, Santitod Colón, que, com sua voz sedutora, podia incendiar ou seduzir o público. "El Cayuco", a faixa de abertura, desliza pelas ruas dos subúrbios com um sincopado bem orquestrado, instigado pelo hipnótico trabalho de Puente nos címbalos e pelo toque destacado da trompa. Puente mostra seu talento de percussionista em várias outras faixas extraordinárias de estilos diversos: na instrumental "Hong Kong Mambo", ele toca marimba como gosta, enquanto na majestosa "Estoy Siempre Junto A Ti" enquadra toda a música em seu vibrafone fluido e, muitas vezes, contido.




Concluindo
Pense na música latina como você a conhece hoje. Aquele famoso cha-cha-cha... Então, começou aí. Claro que existem outras coisas que vieram antes e que levaram a isso, mas, enfim, é aí que tem início aquele "mambo bem caliente", como dizia Heleninha Roitman.

Não tenho nada de muito extraordinário para dizer sobre Dance Mania, Vol. 1. Sou suspeita pra falar de ritmos latinos, porque gosto muito deles e morro de vontade de aprender a dançar salsa, mambo e afins. O disco de Tito Puente é muito bom, impossível não notar como influenciou toda a música latina que veio depois. Aquela influência africana que grita no disco de Sabu e aparece um pouco também no de Machito, aqui surge já bem tímida em "Hong Kong Mambo" e "Mi Chiquita Queire Bembe". A força das músicas está nos metais e na percussão. 

Pra ficar perfeito só faltou um mojito, uma ilha caribenha e um latin lover pra me ensinar a dançar mambo! rs



Faltam 492 dias.
Faltam 986 discos.


Here's Little Richard | Little Richard (1957)



Não vou partir do pressuposto que todo mundo que lê este blog conhece Little Richard. Mas, ó, deveria, viu? Digamos que ele é assim... o pai do rock'n'roll.

O próprio Little Richard se autoproclama o "arquiteto" do rock'n'roll, e a história parece confirmar o que ele diz. Mais que qualquer outro artista - salvo, talvez, por Elvis Presley - foi ele quem acendeu o pavio para que o ritmo explodisse nos anos 50, com sua música explosiva (eu sei que ficou redundante, mas não consegui achar outro termo, desculpem!) e sua personalidade carismática. Seu piano nervoso e os vocais gritados em clássicos como "Tutti Frutti", "Long Tall Sally" e "Good Golly, Miss Molly" definiram a dinâmica do rock'n'roll.

Here's Little Richard é o primeiro LP de Little Richard. É uma compilação de gravações anteriores do artista, que em 1956 havia emplacado seis hits no Top 40, alguns deles incluídos neste álbum. É, até hoje, seu disco mais vendido.

O livro diz que:
A palavra "transbordante" nem chega perto de descrever a energia irreverente, quase insana, gravada por Richard, Bumps, Cosimo e pelos músicos mais originais de New Orleans. "Tutti Frutti" começou a subir nas paradas no mês seguinte e foi seguida, em 1956, por "Long Tall Sally", "Slippin' And Slidin'", "Ready Teddy" e "Jenny Jenny". Essa série de músicas enlouquecedoras foi reunida em Here's Little Richard, que ainda apresenta uma foto inesquecível de Richard na capa, em ação.




Concluindo
Tem como não gostar de Little Richard? Não, não tem. Em cada acorde do seu piano, em cada falsetto do seu vocal, dá pra sentir todo seu carisma. Cada música é uma explosão de energia. Fica difícil descrever esse disco sem cair nas pieguices, mas é isso aí.

Pra tentar dar uma ideia da importância que este álbum tem na música, vamos fazer o seguinte: imagine que você está numa festa, tipo um casamento, ou uma formatura, algo assim. Pense naquele momento em que a banda ou o DJ resolvem fazer uma sessão flashback, que quase sempre começa com o bom e velho rockabilly. Pois bem. Já está ouvindo "Tutti Frutti... Oh Rootie!" na sua cabeça (tudo bem, pode ser aquela versão do Jive Bunny and The Master Mixers que fez sucesso nos anos 90)? Então, eu também. Mais de 50 anos se passaram, e "Tutti Frutti" e "Long Tall Sally", por exemplo, continuam como duas das músicas mais icônicas daquilo que conhecemos como rock'n'roll.





Faltam 492 dias.
Faltam 987 discos.